— Os adultos invisibilizam a juventude, principalmente quando o assunto é sério — destacou o médico hebiatra e influenciador Felipe Fortes durante o evento “ECA Digital: Cidadania, Direitos e Conexão Segura para Jovens Aprendizes”. Realizado na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) na última terça-feira (23), o encontro reuniu 70 adolescentes para discutir o ECA Digital e os direitos e deveres de crianças e adolescentes no ambiente virtual.
Organizado pela Coordenadoria de Infância e Juventude (COINFÂNCIA) e pelo Polo de Mediação e Ações Restaurativas (POMAR), sob a coordenação de Letícia Kirchhoff Ribeiro e Ana Rosenblatt, o evento contou também com a participação das Subcoordenadoras da COINFÂNCIA, Clara Prazeres, e do POMAR, Larissa Davidovich. Entre os convidados estavam o médico e influenciador Felipe Fortes e o Coordenador para Proteção de Crianças e Adolescentes em Ambiente Digital do Ministério da Justiça, João Victor Soares Simões, que atua na implementação do ECA Digital. Aos 26 anos, ele também destacou a proximidade com o público participante.
Os jovens aprendizes do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) foram os principais participantes do encontro. Os adolescentes participaram de palestras, atividades interativas e um quiz, que premiou um dos grupos com cinco smartwatches. Ao longo das atividades, os especialistas abordaram questões relacionadas à saúde e à segurança no ambiente digital, enquanto os jovens foram convidados a compartilhar opiniões, dúvidas e experiências.
— Foi muito importante trazer diferentes perspectivas sobre o ECA Digital para os adolescentes e, principalmente, incluí-los na conversa. Os jovens puderam participar de forma ativa em todos os momentos do evento, trazendo dúvidas, se colocando e refletindo sobre seus direitos e sua autonomia. O quiz trouxe a possibilidade de conversas entre pares, em que foi possível debater entre eles sobre a legislação protetiva. Receber os jovens na Defensoria é fundamental para que se sintam acolhidos e incentivados, desde cedo, a exercer sua cidadania de forma plena — afirma a Coordenadora do POMAR, Ana Rosenblatt.
Aproximando o ECA Digital de quem precisa
O início do evento buscou aproximar as experiências dos participantes com o ambiente digital. Questões relacionadas ao uso de inteligência artificial, à exposição nas redes sociais e ao uso excessivo do celular foram apresentadas em uma dinâmica semelhante à brincadeira “Eu Nunca”, na qual os participantes se levantavam quando já haviam feito ou vivenciado a situação apresentada.
A atividade também permitiu uma aproximação inicial entre os palestrantes e os adolescentes e serviu de estímulo para que os convidados desenvolvessem suas falas a partir das experiências compartilhadas pelos jovens.
Primeiro a falar, o médico hebiatra, influenciador e pesquisador Felipe Fortes abordou questões relacionadas à saúde mental e física na adolescência e sua relação com o uso das tecnologias. Em uma linguagem próxima dos jovens, explicou que o uso de telas representa apenas um dos tipos de estímulo necessários ao desenvolvimento do cérebro e destacou a importância de diversificar as atividades cotidianas.
O especialista também apresentou estratégias para controlar o tempo de uso dos dispositivos e chamou atenção para a importância de observar os conteúdos consumidos nas redes sociais.
Ao longo da apresentação, Felipe também tratou de questões como ansiedade e depressão associadas ao uso da internet. De acordo com pesquisa publicada pelo Jornal da USP, entre 2014 e 2024, o número de atendimentos de jovens de 15 a 19 anos relacionados a problemas de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceu 3.300%.
Entre os fatores apontados pelo médico estão a comparação constante estimulada pelas redes sociais e os impactos relacionados ao consumo de pornografia, entre outros aspectos que podem afetar a saúde dos adolescentes.
O segundo convidado foi o Coordenador para Proteção de Crianças e Adolescentes em Ambiente Digital do Ministério da Justiça, João Victor Soares Simões. Ele apresentou o processo de criação e desenvolvimento do ECA Digital e trouxe exemplos que ajudam a compreender a importância da proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.
De forma resumida, João Victor apresentou alguns dos principais temas abordados pelo ECA Digital, como o uso de inteligência artificial e deepfakes para adulteração de imagens, o aliciamento em chats de jogos, as apostas esportivas e as loot boxes, o design manipulativo de aplicativos, a publicidade direcionada, os conteúdos de ódio, o trabalho digital e a regulamentação da atuação de influenciadores mirins.
Ao final, foi realizado um quiz com perguntas sobre os assuntos abordados durante o encontro, com o objetivo de estimular a participação dos jovens e reforçar os conteúdos apresentados. Doze grupos, formados por cinco adolescentes cada, disputaram cinco smartwatches. O grupo “Tamanduá” foi o vencedor.
— Quando pensamos este evento, nossa principal preocupação foi construir um espaço em que os adolescentes não fossem apenas destinatários de informações, mas efetivamente participantes do debate. O ECA Digital trata diretamente da realidade deles e, por isso, precisamos ouvi-los e utilizar uma linguagem que dialogue com suas experiências. A receptividade dos jovens foi muito significativa: eles participaram, fizeram perguntas, compartilharam vivências e demonstraram interesse em compreender seus direitos e também suas responsabilidades no ambiente digital. Para a Defensoria Pública, aproximar os adolescentes dos seus direitos e fortalecer o seu protagonismo também é uma forma de proteção — afirma a Coordenadora da COINFÂNCIA, Letícia Kirchhoff Ribeiro.
Texto: Victor Silveira