
A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) acompanhou, nesta segunda-feira (24), uma roda de conversa do Projeto Inspirar, realizada no Presídio Talavera Bruce, em Bangu (ZO), com a participação da escritora Carla Madeira, autora de Tudo é Rio. O encontro reuniu internas da unidade em torno da literatura e da criação artística.
A Subcoordenadora de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cdedica), a Defensora Pública, Maria Isabel Saboya, destacou o alcance do projeto junto às mulheres privadas de liberdade. Com atuação voltada ao público carcerário feminino, ela acompanha o desenvolvimento das atividades e ressalta a importância de criar espaços em que a leitura possa produzir reflexão e identificação.
– O Projeto Inspirar vai muito além de ser um mecanismo legal para a remição de pena. Ele faz com que as internas desenvolvam um interesse real pela literatura, permitindo que tenham contato com histórias que as atravessam e que dialogam intimamente com suas próprias trajetórias de vida – afirmou a Subcoordenadora do Cdedica.
A iniciativa é desenvolvida pela COEM, no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), em parceria com a OAB/RJ e com a participação da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ). O projeto é amparado pela Resolução CNJ nº 391/2021 e tem entre seus objetivos contribuir para a reinserção social e para a humanização do cumprimento das penas privativas de liberdade no sistema prisional feminino.
Um encontro entre a literatura
Na roda de conversa, Carla Madeira compartilhou com as internas aspectos de suas inspirações e do processo de criação de Tudo é Rio. A presença da autora abriu espaço para uma conversa conduzida também pelas próprias leitoras, que falaram sobre os personagens com os quais mais se identificaram e sobre os trechos da obra que provocaram maior impacto.
Um dos relatos chamou atenção pela relação construída entre a leitora e o livro. Uma das participantes contou que nunca havia se interessado por leitura antes de conhecer Tudo é Rio. Ao falar sobre a experiência, afirmou que conseguiu verdadeiramente "ingressar" na história.
A cena traduz uma das propostas centrais do Inspirar: aproximar as participantes da literatura e estimular a elaboração de ideias a partir das histórias lidas. As discussões são acompanhadas por atividades orais ou escritas realizadas após a leitura das obras selecionadas.
A Resolução CNJ nº 391/2021 estabelece parâmetros para o reconhecimento da leitura como atividade relacionada à remição de pena. Dentro desse marco, o Projeto Inspirar trabalha também a dimensão coletiva da experiência literária, criando momentos de escuta e troca entre as participantes.
Para a Defensoria Pública, esse contato tem relevância na construção de caminhos de reinserção social. A leitura permite que as internas se reconheçam em personagens, confrontem diferentes perspectivas e encontrem novas formas de interpretar experiências pessoais.
No encontro com Carla Madeira, essa dinâmica ganhou um elemento adicional: as leitoras puderam conversar diretamente com quem escreveu a história que havia provocado suas reflexões. A escritora, por sua vez, teve contato com as diferentes interpretações produzidas pelas internas e pôde perceber como Tudo é Rio alcançou um público inserido em uma realidade distante daquela em que a obra foi criada.
Texto: Leonardo Fernandes