ATENDIMENTO AO CIDADÃO


Projeto tem iniciativa voltada para evasão escolar com pessoas em situação de rua

Aplausos, abraços e olhos marejados marcaram a tarde desta sexta-feira (12) no auditório da Fundação Escola da Defensoria Pública (FESUDEPERJ). Pessoas em situação de rua celebraram a conclusão de mais um ciclo do Projeto Acelerando a Escolaridade, iniciativa da Defensoria Pública do Estado do Rio (DPRJ) que, desde 2017, devolve acesso à educação, cidadania e dignidade a quem enfrenta diariamente a violência e a invisibilidade das ruas. As aulas acontecem na sede administrativa e são conduzidas por professores do Colégio Pedro II e defensores aposentados, que voluntariamente constroem uma rede de cuidado e oportunidades.

A mesa de abertura reuniu a Defensora Pública e Chefe De Gabinete, Luíza Lisbôa Amin Trompiere , a Coordenadora de Programas Institucionais da Defensoria Mirela Assad Gomes; O Diretor Presidente da Fesudeperj, Felipe Almeida; A Subcoordenadora do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, Cristiane Xavier; a Presidente da Associação das Defensoras e Defensores Públicos (ADPERJ), Juliana Lintz; a Professora do Colégio Pedro II, Vivian França, num encontro que demonstrou que políticas públicas ganham sentido quando se tornam histórias reais de transformação.

A Defensora Pública e Chefe de Gabinete do Defensor Público-Geral, Luíza Lisbôa Amin Trompiere, abriu a cerimônia reforçando que a formatura é um divisor de águas na vida dos alunos. Ela destacou que compreender direitos é um passo essencial para garanti-los, e que aquele momento simbolizava conquistas que ninguém poderia apagar.

— Esse ciclo que hoje vocês estão encerrando é uma porta de entrada para uma vida nova. Para que vocês tenham verdadeiramente os direitos garantidos e respeitados — afirmou.

Nos últimos anos, o projeto Acelerando tem oferecido aulas de Língua Portuguesa, Matemática, História e Geografia, além de oficinas de literatura, visitas a museus, teatros, bibliotecas e centros culturais. Para muitos alunos, essas foram as primeiras vezes em que pisaram em espaços de conhecimento que antes pareciam inalcançáveis.

Em seguida, o Diretor-Presidente da FESUDEPERJ, Felipe Almeida, lembrou que, mais do que um certificado, o conhecimento adquirido é patrimônio definitivo na vida dessas pessoas.

— Nós sabemos os desafios que vocês encontram para que possam estar conosco aqui todos os dias, acompanhar as aulas, se dedicar, sabendo as dificuldades que vocês encontram lá fora. E como eu costumo dizer em toda formatura, a importância do conhecimento que vocês se aprofundam aqui, talvez hoje não consigam mensurar, mas é uma riqueza tão grande que isso jamais vai ser tomado de vocês— declarou.

A coordenadora de Programas Institucionais, Mirela Assad, falou sobre o impacto humano do projeto.

— Compartilhar o conhecimento, eu acho que é o ato máximo de generosidade humana. Eu diria que a palavra com generosidade, ela se traduz nisso, na educação e no compartilhar conhecimento. Porque nós estamos libertando pessoas e estamos nos tornando pessoas melhores — disse a Coordenadora.

Já a Defensora Pública e Subcoordenadora do Núcleo de Defesa Direitos Humanos, Cristiane Xavier, trouxe emoção em sua fala ao lembrar das dores e resistências da vida nas ruas.

—- Vocês sentados aqui provam que somos iguais como seres humanos e merecemos o lugar que estamos ocupando — disse.

Para ela, cada aluno é símbolo de força e de uma luta que não começa nem termina na sala de aula.

A presidente da ADPERJ, Juliana Lintz, reforçou a potência transformadora da iniciativa.

— Tenho certeza de que esse projeto transforma vidas e continuará transformando por muitos anos — afirmou.

A parceria com o Colégio Pedro II também foi celebrada. A professora Vivian França destacou o impacto concreto das oportunidades educacionais.

— O acesso à educação amplia horizontes , e vocês são a prova viva disso — finalizou.

Ela lembrou da trajetória de Juliana, ex-aluna do Acelerando, hoje universitária, símbolo do que nasce quando alguém é visto, acolhido e incentivado.

A arte, a poesia e o afeto como forma de existir

Durante o evento, os alunos apresentaram um mural artístico produzido ao longo do ano — cada peça, um fragmento de suas vivências, dores, descobertas e alegrias no projeto. Professores receberam certificados, em reconhecimento ao vínculo afetivo que constroem diariamente com a turma.

O momento mais tocante veio quando os alunos recitaram poemas escritos nas aulas. Entre eles, a voz de Vallane Oliveira ecoou com delicadeza e força:

“Acelerando é tudo para mim. Mas que pena que eu não pude todos os meses todos por problemas pessoais. Mas mesmo assim eu fico feliz pelos professores, todos eles, é a oportunidade que a Doutora Sara me deu. Que no próximo ano seja diferente. Amar o Acelerando é como um livro que eu acabei de ler. Amar o Acelerando é como uma canção que eu acabei de fazer. Como é bom amar vocês, professores, e as meninas da direção. Obrigado, Acelerando. Como é bom amar você, Doutora Sara.”

A formatura de 2025 encerrou mais um ciclo, mas abriu portas maiores: as portas de uma vida onde a educação não é privilégio, e sim direito. Para muitos ali, era o primeiro diploma. Para todos, era o começo de algo que ninguém poderá tomar — a certeza de que merecem e podem criar novos futuros.

Texto: Mylena Novaes

Fotos: Bruno Itan



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