A Cabeleireira Laryssa, de 24 anos, aguarda a emissão dos novos documentos, onde constarão seu nome social, para realizar o sonho de casar na igreja vestida de noiva e receber a bênção do padre. Através da Defensoria Pública de Bom Jesus de Itabapoana, interior do Rio de Janeiro, ela e mais outras duas pessoas transexuais deram início ao processo de requalificação civil. E para que não haja violação da dignidade e privacidade destas pessoas, a Defensoria tem pedido ao cartório para que não coloque nas documentações ressalvas que apontem essas alterações, já que a determinação do STF - que permite travestis e homens e mulheres transexuais realizarem a mudança de gênero e nome no registro sem necessidade de ação judicial - não prevê a prática.

Larissa e o noivo se preparam para organizar a festa de casamento. Foto: Arquivo pessoal. 

 

Segundo a defensora titular de Bom Jesus, Ivana Araújo, esse foi o pontapé inicial na cidade para outras conquistas, como fim da exclusão social, por exemplo. Ivana comenta que normalmente em cidades do interior, os habitantes costumam ser mais conservadores e, infelizmente, a aceitação do que é diferente acaba sendo mais difícil.

 

Em Bom Jesus essa situação se repete, e isso faz com que o público LGBTT+ - lésbicas, gays, bissexuais, travestis,transexuais, intersexuais, assexuais, e todas formas de gênero e sexualidade - seja vítima de preconceito, que mesmo velado, afeta bastante a vida deles.

 

- Por ser uma cidade com valores tradicionais bem arraigados, alguns habitantes encaram as pessoas que não se encaixam nesses padrões com estranheza e desconforto, o que, na maioria das vezes, causa sofrimento às vitimas desse preconceito. Esperamos que esses três motivem outras pessoas a se sentirem empoderadas para que os documentos reflitam de fato como elas são, explicou a defensora.

 

A defensora destacou ainda a importante atuação do Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (Nudversis) nesse processo de readequação de travestis e transexuais em Bom Jesus. Ivana contou que o Nudeversis foi responsável não só pela assistência, mas também por ceder laudo psicológico, que atesta convicção do gênero que os assistidos dizem ter. 

 

- Nós vamos continuar lutando para que eles possam exercer seus direitos e que consigam conquistar seus respectivos espaços na sociedade. Estou batalhado também para impedir que o cartório faca anotações nesses documentos informando que eles sofreram alterações. Porque, além de ferir o direito à privacidade e intimidade dessas pessoas, isso vai contra a própria sentença, que não prevê essa ressalva- explicou Ivana.

 

Realização de sonhos

 

Laryssa, que mantém relação estável há três anos com o companheiro, não esconde a excitação ao contar detalhes sobre sua festa de casamento. Ela conta que sempre sonhou com o dia que entraria na igreja vestida de noiva.

 

- Comecei minha transformação aos 13 anos. Fui discriminada pelos meus familiares e saí de casa. Morei na rua, me prostitui e fui agredida por um rapaz que ia me estuprar, e ao descobrir que era trans, em um acesso de ódio me bateu muito.  Com meu nome, o que eu escolhi, na minha identidade tudo isso vai mudar, inclusive na forma como as pessoas me enxergam. Só sei que agora vou poder causar no meu casamento com um vestido belíssimo e de cauda bem longa - comentou a cabeleira.

 

Para a cabeleireira Joyce Rodrigues da Silva, de 37, ter em mãos a nova documentação finaliza sua luta pela requalificação civil, que durou quase dez anos. Joyce apontou a falta de sensibilidade das pessoas com relação à tratativa, que por notarem grande discrepância entre os dados do registro civil e a imagem dos portadores dos documentos, não só expõe o público LGBT à situações embaraçosas como traumatiza as vítimas e fomenta o preconceito na sociedade.

 

- O maior constrangimento já surge no momento em que se tem que mostrar os documentos. E eu, mesmo tendo uma imagem feminina, as pessoas olhavam com ar de indagação e acabavam por me tratar pelo nome masculino. Minha vida agora ganhou novo sentido, porque respiro livremente na hora de apresentar minha documentação. Eles me representam e me tornaram mais segura -, declarou.

 

Já Edward Renny, de 20, aguarda ansiosamente a entrega dos novos documentos, previstos para o início de junho, para que em seus diplomas de Técnico em Enfermagem e da faculdade de Letras constem o nome que escolheu.

Edward terá o nome que escolheu no diploma da faculdade e do curso técnico de enfermagem. Foto: Arquivo pessoal. 

 

- Eu estou me sentindo realizado demais porque isso é o que todo transexual almeja para si. Eu já fui constrangido por uma atendente de postos de saúde por querer ser tratado da forma que eu mereço. Ela, que por falta de conhecimento, se recusou a incluir meu nome social na carteira do SUS. A expectativa é que isso acabe de vez-, disse o estudante.



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